quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Conhecer a Guiné-Bissau: provérbios em crioulo!

Espetacular termiteira de bagabaga!

Como em todas as línguas, os muitos provérbios do crioulo guineense (não conhecia nenhum!) são um manancial de ideias sábias tecido na dureza da vida quotidiana.
O primeiro que descobri foi este:
1. Baga-baga ka ta kata iagu, ma i ta masa lama. = A bagabaga não tem água, mas amassa o barro.
É muito usado na educação das crianças, passando-lhes a mensagem de que o importante é “desenrascar-se” com engenho mesmo quando as condições da vida são adversas.
A bagabaga é uma térmite, cujas construções (feitas de substâncias lenhosas e barro e que muitas vezes ultrapassam os dois metros de altura) fazem parte da paisagem. Quando se sai Bissau, é impossível não as ver, “plantadas” entre os cajueiros e as mangueiras. Um destes dias, vou dedicar-lhe um artigo, incluindo uma história que me contaram.

Embora, 70% do seu léxico tenham influência do português, o crioulo guineense (com muito em comum com o crioulo de Cabo Verde) não é uma espécie de "português mal falado" como muitos pensam. Tem regras próprias e raízes nas línguas indígenas. Por exemplo, bagabaga, grafia adaptada ao português, vem do crioulo baga-baga, formado a partir do bambara baga e do mandinga baaba.
Muito interessante também é a sua sonoridade, agradável ao ouvido, resultado sobretudo do jogo entre os sons “i” e “á”. Experimente ler em voz alta os provérbios 15 e 18. Lê-se como se escreve (não há acentos no crioulo).

2. Bardadi i suma malgeta: i ta iardi.
A verdade é como a malagueta: arde.
3. Bariga ka fila ku arus, ki-fadi miju.
Barriga que não se dá bem com arroz, muito menos se dará bem com milho.
4. Bianda sabi ka ta tarda na kabas.
Comida saborosa não demora muito na panela.
5. Bibus na cora, ki-fadi mortus.
Se os vivos choram, que dizer dos mortos.
6. Boka ficadu ka ta ientra moska.
Em boca fechada não entram moscas.
7. Deus sibi ke k' manda iagu di mar salga. 
Deus sabe porque a água do mar é salgada.
8. Dinti mora ku lingu, ma i ta daju i murdil.
Os dentes moram com a língua, mas às vezes mordem-na.
9. Dus galu ka ta kanta na un kapuera.
Dois galos não cantam no mesmo poleiro.
10. E fila suma gatu ku kacur.
Dão-se como o cão e o gato.
11. Falta di mame, bu ta mama dona.
Na falta de mãe, mama-se na avó.
12. Forsa di pis, iagu.
A força do peixe é a água.
13. Garandis kuma kanua sin remu ka ta kanba mar.
Os anciãos dizem que canoa sem remo não atravessa o mar.
14. Gatu fartu ka ta montia.
Gato de barriga cheia não caça.
15. I ka ten sabi ku ka ta kaba.
Não há bem que nunca acabe.
16. I sancu di dus matu.
É macaco de dois matos.
17. Kabra nunka i ka ta misa dianti di lubu.
A cabra nunca mija perto da hiena.
18. Kacur ka ta tene kacur.
O cão não tem cão.
19. Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin.
Sou como o mamão: não fico parado na barriga de ninguém.
2o. Garandi i polon, ma mancadu ta durbal. 
O poilão é grande, mas o machado derruba-o.

Para ilustrar o provérbio 20., eis um imponente poilão fotogrado em Farim.

Abrasu e não esqueça de que “pekadur dalgadu i ta dana moransa” (quem tem mau feitio estraga toda a comunidade).

António

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